
Era na ponta de um grande trapiche de Cabourg, na direção do porto dos iates. Na praia a criança levantava uma pipa chinesa. Aquela criança não se movia do lugar onde estava. Em volta dela, outras crianças jogavam bola. Estavamos bem longe, no terraço. Ventava e a noite caía. A criança não se movia, a tal ponto que começamos a achar sua imobilidade insuportável, depois dolorosa. De tanto escrutar, escrutá-lo, cavar a imagem, vimos o que era. A criança tinha as duas pernas paralíticas, magras como sarrafo. Certamente alguém ia passar para buscá-la. Algumas crianças já estavam indo embora. A criança continuava brincando com a pipa. Às vezes a gente diz vou me matar, depois retorna o livto. Alguém deve ter ido buscar a criança antes de a noite cair. Aquela pipa no céu assinalava o lugar onde ela se encontrava, não havia engano possível.
Marguerite Duras